Um conceito-chave para a Inteligência é o de sistema. As informações chegam ao Analista por vários canais e fontes, porém, circulam em uma rede de atores sociais muito antes de chegarem até ele. Atores sociais porque as fontes de informações são sempre, em alguma instância, humanas. Podem estar nos órgãos do Estado, na iniciativa privada ou fora de ambos – ONGs, profissionais liberais, autônomos etc. Mas, o Analista não é o caminho natural das informações. Não há um rio de informações correndo, inexoravelmente, para o mar dos Analistas. Ou seja, não é um processo linear. Portanto, surge a necessidade de se criar uma rede, ou sistema, para que as informações, fluindo normalmente nessa rede, possam alimentar toda a cadeia. Esta é a idéia de rede que realmente funciona: em formato de sistema aberto, onde cada ator é fornecedor e consumidor, a um só tempo, das informações que trafegam na rede.
A idéia de rede é tão importante e basilar para a Inteligência que chega a ser confundida com a própria “comunidade de Inteligência”; que, na verdade, é bem menor (mas, não menos importante!) que a rede. Sob esse aspecto, a Inteligência, outrora chamada de Informações, sempre esteve à frente do seu tempo, praticando um conceito neo-moderno de holismo; ainda que não o tenha inventado, mas, antecipou a visão não-cartesiana do mundo, contra os meios modernos e fordianos de produção. Poder-se-ia dizer que a chamada “era do conhecimento” foi gestada dentro da cultura militar do pós-guerra, no período chamado de guerra-fria, impulsionada pela “atividade de Informações” e dentro de um corpo doutrinário específico. Essa foi a grande contribuição desse período histórico, a despeito de todos os erros que possam ser apontados. Não foi uma conquista acadêmica, embora se vislumbre a sua participação; porém, foi gerada em nível governamental e dentro de uma cultura de guerra, em um mundo totalmente polarizado. É bem verdade que, durante a ditadura militar no Brasil (1964-1985), funcionava uma “rede” hierarquizada e linear – paradoxo do sistema antigo – onde havia no topo da cadeia o SNI (Serviço Nacional de Informações) com suas ramificações nos Ministérios (as DSIs – Divisões de Segurança e Informações), nos órgãos militares (os Centros de Informações de cada força) e até nas empresas estatais e autarquias (as ASIs – Assessorias de Segurança e Informações); além de sua estrutura de Agências, Escritórios e Secretarias espalhados por todo o país. As informações transitavam nessa “rede” por meio de documentos específicos, conforme consta em arquivos protegidos por Lei, sempre em uma única direção; caminho ascendente, para um decisor único; tornando o SNI um dos mais fortes instrumentos de controle estatal. A personificação do Argos mitológico.
A Inteligência no Legislativo representa o paradoxo do sistema atual, não por subverter a lógica de rede, que pressupõe uma malha onde cada ponto é importante para o funcionamento do todo e seu moto-principal é a retro-alimentação. Esse sistema é capaz de manter vários decisores, concomitantemente, sem prejuízo das questões estratégicas de cada um, pois agem observando o “princípio da compartimentação”. O paradoxo surge pelo fato de o Legislativo ser o fiscalizador da atividade de Inteligência e possuir órgãos de Inteligência em seus quadros. A Comissão de Relações Exteriores do Senado (CRE) e a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados (CREDEN) reúnem-se sob a presidência de um de seus presidentes, em um mandato de dois anos, para formarem a CCAI – Comissão Mista de Controle das Atividades de Inteligência. Fazem parte também os líderes da maioria e da minoria das respectivas Casas legislativas. À CCAI compete aprovar a PNI – Política Nacional de Inteligência; fazer acompanhamentos; receber relatórios das atividades; convocar profissionais de Inteligência para prestarem esclarecimentos etc. Como executar isso tudo, de forma isenta, fazendo parte do sistema, atuando dentro do sistema? E sistema aqui é entendido como a própria atividade de Inteligência; ainda que existam outros enfoques, como a pesquisa em fontes abertas e a busca do dado negado. Como ser árbitro e jogador ao mesmo tempo?
Contudo, o Legislativo precisa ter a ‘cultura de Inteligência’ para a sua própria proteção. Precisa entender melhor a atividade para poder exercer uma fiscalização mais efetiva. Mais do que fiscalização, o controle; como prevê a Lei 9883, de 07 de dezembro de 1999.
O paradoxo persistirá na necessidade imperiosa que o Legislativo tem de conhecimento. Ou seja, o Legislativo, como poder independente da República, também necessita exercer a atividade de Inteligência. Porém, há um limbo jurídico e uma incapacidade institucional de se explicar essa contradição, já que possui as duas vertentes coexistindo como órgãos da Casa, porém incomunicáveis! É inegável o avanço representado pelo modelo brasileiro de acompanhamento das atividades de Inteligência; sobretudo pela legitimidade e representatividade do nosso parlamento. No entanto, faz-se mister uma melhor discussão sobre o papel de todos os atores que participam de ‘sistemas de Inteligência’.
Antônio Vandir de Freitas Lima
Especialista em Inteligência Estratégica
(61)9951-5428
drvandiesel@gmail.com

Antônio Vandir de Freitas Lima