
Revista Carta Capital/BR
Domingo, 17 de agosto de 2008
CPI DOS GRAMPOS. Escoltado por time de advogados e apoiado por uma claque parlamentar, Dantas deitou e rolou na comissão.
Leandro Fortes e Filipe Coutinho
Foi comovedor. Acompanhado de um séqüito de advogados, inclusive de um que o atende full-time (pág 28), Daniel Dantas voltou a incorporar na CPI dos Grampos o papel de perseguido. Durante horas, o banqueiro distribuiu acusações a esmo, sem provar nenhuma delas, contra a Polícia Federal, a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e desafetos. Mentiu a respeito de fatos comprovados, distorceu a realidade. Como de costume, com o beneplácito dos parlamentares que se aglomeraram na CPI dos Grampos para “interrogá-lo”.
Ante a costumeira bonomia dos congressistas, que repetiram o comportamento da bancada que ouviu o banqueiro na CPI dos Correios dois anos atrás, pergunta-se por que os advogados de Dantas recorreram ao Supremo Tribunal Federal em busca de um habeas corpus que permitisse ao cliente mentir e se calar. Não era preciso, a platéia estava disposta a garantir-lhe o palco.
Réu em vários processos, acusado em outros tantos, o banqueiro foi reverenciado. Já o juiz Fausto De Sanctis, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, responsável por condenar alguns dos mais notórios criminosos de colarinho-branco do País, que depôs um dia antes, acabou pressionado pelos valentes deputados como se fosse um criminoso.
Na quarta-feira 13, certo do ambiente de pura camaradagem que iria encontrar, o fundador do Opportunity chegou bem-disposto para depor na comissão. Até abriu mão do direito de silêncio concedido pelo STF para centrar fogo no governo, no delegado Protógenes Queiroz e em Paulo Lacerda, diretor da Abin.
Manteve-se tão calmo ao longo do depoimento, falou tão baixo que, por duas vezes, o presidente da CPI, o deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), foi obrigado a solicitar aos técnicos que aumentassem o volume do microfone. O depoimento foi acompanhado, passo a passo, pelo advogado Nélio Machado, postado ao lado dele de forma a municiá-lo com informações e documentos organizados por sua equipe. No início da sessão, Machado chegou a responder a uma questão por Dantas, mas foi advertido pelo deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP). Constrangido, Itagiba, idealizador da comissão parlamentar, reconheceu a proibição do expediente, prevista no regimento da Câmara, e não mais permitiu intervenções em voz alta do advogado.
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O juiz De Sanctis não teve a mesma sorte de DD e foi pressionado. Como explicar?
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Assim, ensaiado e bem tratado, Dantas colocou-se no papel favorito de injustiçado e acusou Lacerda, ex-diretor-geral da PF, de ter arquitetado a Operação Satiagraha para se vingar do dossiê de contas bancárias falsas, publicado pela revista Veja em maio de 2006. A época, o então diretor da polícia foi acusado de possuir, juntamente com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e outros personagens da República, contas com fundos ilegais depositados em paraísos fiscais no exterior. Os repórteres de Veja confirmaram ao delegado responsável pelo inquérito ter recebido o material de um emissário do banqueiro, o espião Frank Holder, ex-agente da CIA. O dono do opportunity foi indiciado por calúnia, com base na Lei de Imprensa.
Aliás, esse inquérito é uma das provas cabais contra os argumentos do banqueiro, que afirma nunca ter grampeado ou mandado investigar ninguém. Hol der foi diretor da Kroll Associates e seus serviços foram pagos pela Brasil Telecom no período em que a companhia era controlada por Dantas. Carta Capital disponibilizou na internet (www.cartacapital.com.br) todas as reportagens produzidas ao longo de mais de sete anos sobre os negócios do banqueiro. Há ali relatos de condenações no exterior e provas reunidas no Brasil de que DD tem o hábito de falsificar documentos e produzir dossiês contra adversários.
A tese de Daniel Dantas, apesar da boa vontade dos parlamentares e de parte da imprensa, não faz sentido. A Operação Satiagraha é um desdobramento da Chacal, de 2004, deflagrada dois anos antes de o dossiê das falsas contas bancárias ter sido publicado por Veja. Na verdade, segundo o relatório final do inquérito, Dantas teria fabricado a papelada para, justamente, se vingar de Lacerda por conta da apreensão do HD (disco rígido) do computador central do opportunity, no Rio de Janeiro, base de toda a investigação tocada por Protógenes Queiroz. Ainda assim, boneco de ventríloquo do advogado ao lado, Dantas entoou uma ladainha sentimental sobre supostas teorias de conspiração montadas pelo governo contra ele.
Ainda sobre Lacerda, o banqueiro disse ter sido informado, em novembro de 2007, de que o ex-diretor-geral da PF tinha montado “uma operação encomendada” para ele. Seria uma “retaliação” de Lacerda por causa da matéria de Veja. “As informações vieram nessa linha e, basicamente, eu me lembro do termo que dizia que ele (Lacerda) iria me colocar um par de algemas”, disse Daniel Dantas. Quem o teria informado? O senador Heráclito Fortes (DEM-PI), aquele que sempre nega ser o líder da “bancada do orelhudo” no Congresso.
DD garantiu só ter ficado “mais atento” quando a Folha de S.Paulo publicou, em abril deste ano, um texto da repórter Andréa Michael, na qual se adiantavam os termos da Operação Satiagraha.
A reportagem serviu de elemento jurídico para os pedidos de habeas corpus impetrados pela defesa de Dantas semanas antes da ação policial.
Aos deputados, Dantas apresentou, ainda, uma teoria conspiratória calcada na suposição de que, no fim das contas, tanto a Chacal quanto a satiagraha foram montadas e incentivadas por grupos ligados à Telecom Itália, interessados em impedir o acordo de venda da Brasil Telecom (BrT) para a Telemar (Oi). Outra contradição: antes o banqueiro alardeava que o governo queria afastá-lo dos negócios para facilitar a fusão. Talvez a razão esteja nos termos favoráveis da negociação. Ele espera embolsar cerca de 1 bilhão de reais com a união das empresas, além de se ver livre de uma dezena de processos movidos pelos sócios dessas companhias no Brasil e no exterior.
Para justificar a tese, Dantas lançou na CPI uma informação “bombástica”. Ao ser interrogado pelo delegado Queiroz, em São Paulo, logo depois de ser preso, teria ouvido do policial a promessa de investigar “até o fim” a venda da Brasil Telecom para a Telemar. Para tal, se fosse necessário, o delegado chegaria até “ao filho do presidente”. O balão-de-ensaio de Dantas tem endereço certo. Em 2004, a Telemar investiu 5 milhões de reais na Gamecorp, empresa de jogos para celular e tevê, da qual é sócio Fábio Luís Lula da Silva, filho de Lula. Como a concretização da “supertele” e o lucro de Dantas dependem de um decreto do presidente para modificar o atual Plano Geral de Outorgas (PGO), nada mais providencial do que colocar a Satiagraha como um elemento de chantagem denunciado, agora, pelo banqueiro.
Lacerda vai depor, por iniciativa própria, na CPI dos Grampos, no próximo dia 20. Ao saber das acusações de Dantas, mandou avisar, pela assessoria de imprensa da Abin, que vai desmenti-las em plenário e explicar, definitivamente, qual foi a participação da agência na operação. A inserção de espiões federais, a pedido de Protógenes Queiroz, tem sido usada como argumento pela defesa de Dantas para desqualificar a ação policial.
Pretende dizer ainda que, como dirigente, não se envolve em investigação alguma, muito menos tem acesso a cadastros telefônicos dos cidadãos. Segundo ele, apenas cinco agentes da Abin participaram da Satiagraha, a pedido do delegado Queiroz, em um esquema de colaboração semelhante ao que ocorre entre diversos órgãos federais.
A ida do chefe da Abin deverá dar uma sobrevida á CPI dos Grampos, instalada, em 19 de dezembro do ano passado, por iniciativa do deputado Itagibá, delegado de carreira da PF. Não é a primeira vez que deporá à comissão. Em 17 de abril, Lacerda foi lá defender a criação de uma lei para autorizar a agência a fazer escutas telefônicas para combater o terrorismo, como acontece em outros países. O objetivo inicial da CPI dos Grampos foi o de investigar uma denúncia de supostos grampos em ministros do Supremo Tribunal Federal. Mais uma daquelas histórias fantasiosas cuja sobrevivência não passa de um fim de semana.
A partir daí, a CPI começou um levantamento de diversos casos de escutas telefônicas ilegais e autorizadas pela Justiça. Logo de início, os deputados decidiram investir em um trabalho técnico, a fim de recolher subsídios para endurecer a Lei dos Grampos, em tramitação no Congresso há 13 anos.
Mas eis que a comissão enxergou uma oportunidade de prestar um serviço ao banqueiro. O momento mais acalorado em seis meses de CPI foi o bate-boca de deputados durante o depoimento de Protógenes Queiroz, responsável por prender duas vezes Dantas. O motivo da discussão foi o jogo de vaidades entre os deputados. De um lado, Laerte Bessa (PMDB-DF) e Alexandre Silveira (PPS-MG), delegados de carreira, saíram em defesa de Protógenes e criticaram a postura ofensiva de Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP) e Pompeo de Martos (PDT-RS).
Depois foi a vez de alvejar o juiz De Sanctis, que autorizou as prisões de DD. O magistrado refutou a maioria dos ataques, mas não escapou das aleivosias da imprensa no dia seguinte (a mesma mídia que produziu um relato laudatório do depoimento de Dantas, apesar de saber onde e quando o banqueiro mentiu).
Durante o depoimento, De Sanctis defendeu a independência da Polícia Federal e rejeitou as acusações de que teria autorizado escutas ilegais no gabinete do presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, responsável pelos dois habeas corpus, concedidos em menos de 48 horas, para libertar o dono do opportunity. Foi duramente questionado pela comissão parlamentar. Por que será que os parlamentares não tiveram o mesmo ímpeto diante do banqueiro?